Era quase uma hora. Até gente que costuma ficar por último já tinha ido. Você sabe. Eu não me intimido. Às vezes o tiro tá pipocando aí em volta e eu aqui, trabalhando. Mas era um dia fraco. E eu já ia fechar quando ele apareceu. Não falou nada. Não pediu nada. Só olhou para mim, fixamente, por alguns segundos. E depois saiu. O danado daquele olhar ficou na minha mente me perturbando. O que eu fiz? O que eu fiz? Nada. Não fechei as portas. Não apaguei as luzes…Aliás, não sei o que fiz. Fiquei assim, desnorteado…
No outro dia, fiquei muito pensativo e o meu serviço não me dava mais alegria. Ficar papeando no balcão nem era mais do meu gosto. Amigo velho que chegava aí, ignorava. Tava difícil. Por isso, vou fechar.
Quanto pai de família ficava aí, pelos cantos, trombando nas próprias pernas e isso nunca mexeu comigo. O que vou fazer? Escolha dele. É um adulto. Eu sou um comerciante. Pensa que é fácil ter uma porta neste lugar. E o “pedágio”? E os impostos? E a educação dos filhos, da família…Sim, eu sei. Você não está me cobrando nada. Acho que estou com dó de mim mesmo, sei lá…Teve nego que já morreu aqui dentro; algum, atravessado de faca…
Tudo bem. Já criei meus filhos…Agora, vou mudar de negócio…Não ainda não sei o que vou fazer. Talvez, vender roupas…Tenho umas economias…Talvez os olhos daquele traste saiam de dentro de mim….Quando ele saiu da minha frente naquela noite, já em seguida ouvi vários tiros. “Acabaram com o infeliz”, pensei. Logo de manhã sai procurando, mas não achei nada. Deveria ser só farra de outro.
Bom, tá tudo aí. O estoque, o ponto que é muito bom, a clientela formada… E esse preço que é de pai para filho. Mas, olha, se fosse você não comprava. Não vale a pena…Quer dizer, você que sabe.
(Bíblia: Romanos 12.2: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente (entendimento), para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”)
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