O rapaz segura com suavidade a cabeça de sua mãe, protegida por um lenço, e depois escorregam as mãos até o ombro dela:
- Estou de volta, mãe. – diz.
- Que bom, filho. Que bom, querido. – No seu íntimo ela se pergunta “Até quando?”, mas guarda para si.
- Puxa, mãe. Aqui está tão bonito. – A mulher concorda.
Do lado direito do caminho, agaves, costelas-de-Adão e bromélias misturam-se a outras plantas floridas e não floridas menos conhecidas. Pelo lado de baixo, coqueiros anões enfileirados; alguns exibem seus primeiros cocos. Entre estes e a estradinha, roseiras. Ele não comenta, mas sabe que é principalmente trabalho do pai. A mãe auxilia, mas gosta mesmo é de cozinhar.
Abraçados feitos dois namorados, as duas mãos dela envoltas em torno da sua cintura, uma posição difícil para a setuagenária, contornam a casa. A parede lateral deste lado é a do quarto do casal. Aqui, numa larga faixa, podem-se ver os tijolos maciços sob o reboco caído. Terminada esta, em movimento de u, outra janela. Mas, aqui, nem reboco há. Os tijolos aparentes falam de chuvas, de tempo, de vento, de pedras, de crianças... Algumas daquelas marcas o próprio Manuel as fez. Com formão, com faca, com pedras ou qualquer outra ferramenta pontuda ou rombuda. Ele para e observa. Dentro de um coração, “Joaquim Manoel e Marianinha. Para sempre”. O dele dá uma coceirinha gostosa. A mãe observa-lhe a reação e sorri.
- Casou, filho. Tem gêmeos. Mora lá no vinte.
- Fez bem, mãe. Está bom assim… Está de bom tamanho. – Ele próprio se pergunta se uma resposta grande assim não quererá dizer alguma coisa mais. Mas não. É a nostalgia da primeira adolescência, do que ela tem de bom.
Embaixo da casa amontoam-se cestos, caixas de madeira e cama de frango.
Para subir à cozinha tem uma pequena rampa com corrimão. Vê-se que o pai a fez para facilitar a vida da esposa. Sobem por ela.
A casa por fora mudou quase nada. Por dentro, a começar pelo madeiramento novo do assoalho e pelas paredes recém-rebocadas, metade foi reformada. O fogão a lenha também. Está aceso. Uma chaleira fumegante arde sobre um fogaréu. A mãe aproxima-se rapidamente e, sem olhar, joga pela porta afora um galho grande que estala no quintal repicando brasas fumegantes.
Ela se volta num sorriso, envolta num contentamento juvenil.
- Comigo é assim, diz. – Esquentou demais eu ponho pra fora.
A frase remete Zito para uma irmandade de oito em torno da mesa, comendo pão caseiro, broa de milho, bolo de fubá e café com leite. Eram vizinhos que, depois do culto de domingo à tarde, se juntavam para a “comidaiada” que a mãe fazia.
Essa vivacidade e o vigor desses tempos se esvaem em alguns acontecimentos recentes, que o fazem desviar os olhos da lembrança. A mãe percebe:
- Que foi filho? - Diz.
- Hum…? Faz-se de desentendido.
A mãe finge que acredita. Não é mesmo coisa de se importar. Com cuidado e um pano grosso na mão ela tira a chaleira quase vazia do fogo. Da mesma forma tira a tampa e espera o vapor sair. Daí, coloca mais água.
- Agorinha já vai sair um café. – Avisa, enquanto matuta que o filho está tão silencioso quanto de costume.
- E como é o garimpo, filho? – Numa das poucas vezes em que escrevera Manoel comentara com os pais que trabalhava
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